sábado, 3 de novembro de 2007

A Arte de Ensinar










Para iniciar a discussão a que me proponho neste trabalho, começo com uma metáfora, que é recorrente na história de grupos que fazem educação: a metáfora do jardim.

Jardim transmite a impressão de início: nele são semeadas futuras flores e plantas; as crianças começam a sua incursão na educação formal através da Educação Infantil, anteriormente chamada Jardim da Infância. Dali elas extrairiam o olor de seres completos e com personalidade e caráter congruentes, para que, desde aquele momento em diante, passassem a ser, também, pessoas congruentes.

O jardim era também um local na Antigüidade Clássica onde mulheres, crianças, escravos e cidadãos se encontravam para procurar a felicidade.

Os professores também procuram a felicidade dos seres. O grande segredo da longevidade da educação tem sido o cuidado que o mestre nutre por sua relação com o aluno, por sua tarefa de educar e por sua proposta de trabalho.

Procurar a felicidade corresponde ao fato de prestar uma ajuda ajustada a quem carece dela: a criança sonhadora e seus pais, ou seja, as pessoas reais da sociedade que depositam na instituição escolar inúmeras expectativas e sonhos com relação à educação de sua prole e de si mesmas. Estas pessoas importam-se, e muito, com aquilo que é lido para seus filhos, com o que seus filhos têm aprendido na escola e, principalmente, com qual tem sido o papel desempenhado pelo professor na vida de seus filhos.

Ao pensar no professor e no papel que desempenha penso numa figura análoga a ele: o beija-flor - a ave mais bela que existe em nosso mundo, em sua forma e essência. Porém, ao lembrar do beija-flor, penso em dois outros seres alados que também podem servir de analogia à figura de alguns professores e ao modus operandi diverso de sua atuação: a mosca e a borboleta.

Imaginei seres alados porque confio veementemente que o professor tem a capacidade de provocar uma superação do status quo de seus alunos, uma mudança de comportamento - expressivo, sensitivo, cognitivo, ou de outra ordem - assim como os seres alados, que nos remetem a novos horizontes ou possibilidades de observação de um mesmo horizonte antigo.

Descrevo a seguir o processo educativo sob a ótica do professor que tem a visão da mosca, da borboleta, do beija-flor e, consecutivamente, a maravilhosa atitude de educar, tendo como utensílios os Contos de Fadas: ou seja, a leitura que o professor leva às suas crianças.

Quanto às supracitadas "visões", elas podem "acontecer" de formas diversas em termos de tempo, espaço e intensidade.

Três Visões em Educação: a atitude do professor

Visão da Mosca
Estabeleçamos a analogia pictórica de que a sala de aula seja um jardim. Pensemos que neste jardim existem muitas flores como analogia aos alunos da sala de aula, porém, existe também, uma fruta podre. O professor aparece relacionado à figura de uma mosca, despreza as flores e vai direto na fruta podre. Assim, este professor é aquele profissional que capta tudo que é feio, exaltando os defeitos. É o caso do professor que enxerga somente os erros, os defeitos e as derrotas, não só de seus alunos, mas dele próprio, dos colegas, do sistema, da vida, frustrando-se com o volume de erros com que deve lidar cotidianamente.

Visão da Borboleta
Nossa analogia continua igual em sua extensão e personagens, com exceção de uma: a mosca. A partir de agora, toma o espaço de representante do professor a borboleta. O lugar também se altera: há um pântano com muito lixo, coisa deteriorada e suja. No meio de tudo há uma flor. A borboleta despreza todo o resto e pousa direto na flor. Capta tudo que é belo, exaltando as qualidades positivas. É o caso do professor que só repara os êxitos e as qualidades positivas dos alunos. Como não é sempre que encontra o belo, frustra-se.

Visão do beija-flor
Agora o lugar pictórico de nossa analogia muda um pouco de aparência. A figura do professor também se altera, neste lugar, toma a cena o beija-flor. Este lugar é metade jardim e metade pântano. O beija-flor visita os dois ambientes. Prefere fazer seu trabalho iniciando-o pelas belas flores do jardim, mas tudo que pega dali, dissemina no pântano e, aos poucos, faz dali um jardim. É o caso dos professores que sabem dos percalços de seu trabalho, compreendem as meias-medidas e disseminam beleza e leveza por onde quer que passem.

Para pensar o que se pode fazer com o discurso psicológico dos Contos de Fadas podemos refletir sobre o que se lê para nossos jovens. Num mundo em crise, em que o progresso acentua a dicotomia entre razão e emoção e provoca atitudes fragmentadas no ser humano, o trabalho em sala de aula com Contos de Fadas é algo muito saudável.

Sabendo que a escola deve formar alunos críticos, participativos e criativos, que possam refletir sobre si e a sociedade, sabe-se que é importante o cultivo do pensamento, desde muito cedo, para que o indivíduo, gradativa e livremente, construa sua autonomia a partir de uma consciência crítica. Esse cultivo deve permear todo o processo de ensino escolar, nos diversos graus e nas diversas modalidades de ensino. O ser humano necessita muito mais do que a razão e o corpo físico para sobreviver, carece de doses afetuosas de carinho e relações satisfatórias, além de entrar em contato com seu próprio eu, necessita constituir-se sujeito, lidar com seus medos e anseios, bem como com suas características boas e más.

A identidade é um dos constituintes do que se convencionou chamar representação de Si Mesmo, a base da estruturação do Eu. Freud sintetizou este processo ao citar Goethe: "Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para ser teu".

Para Freud (1923) - o ego é um precipitado de identificações", o que, porém, não significa ainda ter um Eu ou uma Identidade. O processo identificatório ou de individuação requer,
num primeiro momento, identificação da criança com seus pais (movimento que propicia internalização de valores oriundos dos mesmos) e,
num segundo momento, relações fraternas entre irmãos (que funcionará como defesa contra a inveja e a rivalidade), posteriormente, mas não com menor importância, inicia-se a criação de um vínculo com membros de determinado grupo, notadamente a escola (quando a criança passa a exercitar a empatia) e,
finalmente, vivencia o processo de diferenciação quanto à sua família e colegas, voltada à conquista de sua singularidade.

Assim, pode-se dizer que toda pessoa pode ser considerada, em termos do que congrega de atributos e valores:
a) como todas as outras pessoas (as características universais),
b) como algumas outras pessoas (as características de grupo) e,
c) como nenhuma outra pessoa (suas características idiossincráticas), ou seja, a pessoa deve ser entendida sob três dimensões:
a dimensão biológica,
a dimensão social e
a dimensão individual.

Para saber mais ou ler o artigo na íntegra, acesse a guia Artigos do site: www.edukaleidos.pro.br
Artigo: Marilene Lima - Psicóloga, pela UMESP (1991-1997) e Mestre em Educação: História, Política, Sociedade, pela PUC/SP (1999-2001) tendo desenvolvido pesquisa sobre a História dos Métodos de Alfabetização em São Paulo. Atuou por dez anos como Professora da Educação Básica (1991-2001). Psicóloga (UMESP). Atua como docente na Pós-Graduação da UNISA nos cursos: Psicopedagogia Clínica e Institucional (Lato Sensu). MBA Executivo em Gestão de Pessoas (Unisa Business School). Contato: marilenelima@edukaleidos.pro.br . Site: www.edukaleidos.pro.br.

domingo, 7 de outubro de 2007

O Mundo Encantado dos Contos Folclóricos





RELAÇÃO PEDAGÓGICA E... O CAMINHO QUE SE DEVE SEGUIR EM EDUCAÇÃO...

Este blog foi concebido com a idéia de auxiliar o educador em sua tarefa educativa. Para a construção de uma educação de qualidade, o profissional em educação deve estar atento não só à “matemática” reinante nas teorias que hoje sustentam a prática educativa, mas, sobretudo, ao anseio que leva no fundo de seu peito.
Fala-se tanto nos


  • “Quatro Pilares da Educação” (UNESCO),


  • “Sete saberes necessários à educação do futuro”(Edgar Morin) ,


  • nas “Sete Competências Básicas que Devem ser Desenvolvidas nos Alunos” (Bernardo Toro),


  • nas “10 Novas Competências Para Ensinar (Philippe Perrenoud),


  • nas “Seis Propostas para o Próximo Milênio”(Ítalo Calvino),


  • nas Inteligências Múltiplas (Howard Gardner) etc.


... que, por vezes, esquece-se da conta básica: a soma do encontro – 1+1= professor + aluno = relação que o aluno anseia viver com seu mestre e a soma da verdade – 1+20, 1+30 ou 1+40 = professor + seus alunos, que preocupa tantos docentes.



Assim, de uma maneira leve mas nem um pouco simplória, se pensa a relação pedagógica neste blog: procurando responder às necessidades de ambos os principais pólos do processo: professor e aluno – que manifestam a ansiedade por um encontro significativo por um lado e a ansiedade por um bom resultado de trabalho, do outro.



Sugere-se o trabalho com Contos de Fadas - Folclóricos, por serem narrativas que, há séculos, encantam crianças e adultos, possuindo profunda significação na economia afetiva de ambos.



A escola é também locus da constituição do sujeito, nela, os adultos estão implicados a partir de seus saberes e suas vivências de infância.



O ser humano, para constituir-se e escreVER-se sujeito, necessita muito mais que a razão e o corpo físico; necessita de doses afetuosas de carinho e relações satisfatórias para entrar em contato com seu Eu, lidar com seus medos e anseios, com suas características boas e más, instalar-se no Eu e no Outro.



Sabe-se que a base da estruturação do sujeito é sua Relação com o Outro, assim, cabe à escola desenvolver um Olhar e uma Escuta competente que possa capacitar o aluno a refletir sobre si e sobre sua relação com o mundo – relação a partir da qual ele aprende – garantindo o cultivo, a estimulação e a percepção de seu desejo de aprender – e apreender-se – desde muito cedo, para que, gradativa e livremente, construa sua autonomia enquanto sujeito.



Os Contos de Fadas, eminentemente os folclóricos, quando bem trabalhados, são utensílios de grande valor e eficácia para esse fim, pois, lidam com algo da ordem do improviso e do imprevisto e sugerem “intervenções” construídas na Relação – uma possibilidade no ambiente pedagógico e psicopedagógico.



Assim, são estratégias terapêuticas para que o intercâmbio entre os valores da ciência e do progresso (o Saber) e os valores da vida interior (o imprevisto e o improviso – o Ser) não provoquem atitudes fragmentadas no ser humano adulto e este possa contribuir para a constituição de novas subjetivações no campo dos dispositivos escolares.



Neste contexto, é importante que se saiba, principalmente, o caminho que se deve seguir ou, ao contrário de alcançar um objetivo bem estabelecido, corre-se o risco de, como Alice em "Alice no país das Maravilhas", não conseguir definir bem um lugar a chegar e permanecer com a sensação de não estar chegando a lugar nenhum...



- Poderia me dizer por onde devo ir-me daqui?



- Depende muito do lugar onde quer chegar._ Não importa muito onde?



- Dessa forma, não importa também onde vai dar esse caminho...

domingo, 29 de julho de 2007

É importante registrar...




... que antes de ter este blog, eu fiz um blog, no qual relatava e circulava algumas informações que adquiri sobre os encantos dos Contos e Cantos Folclóricos e a rica contribuição que estes textos podem oferecer numa realidade tão dura e por vezes cruel...
Recebi de meus queridos leitores suas sugestões, opiniões e impressões sobre o blog de que lhes falo, quando criei este blog, pois o outro saiu do ar, considerei importante registrar a história de nossos escritos, deixo os comentários e sugestões que recebi registrados abaixo. Vale conferir! São comentários de pessoas de vários estados Brasil e de Portugal.
Quem quiser trocar informações ou fazer comentários, fique à vontade.
Um abraço,
Obrigada.
Profª Ms. Marilene Lima


29/07/2004 12:14 - Projeto com o Conto Riquê de Topete(Contos, Cantos e seus Encantos)

Acompanho o seu trabalho já há algum tempo e me sinto segura para afirmar que você tem muita competência no trato com a formação de professores, em particular em questões de literatura infantil atrelada à psicologia educacional.
Gostaria de parabenizá-la pelo belíssimo blog e pelo conteúdo do mesmo - útil e bonito, referência e ensinamento.
Desejo sucesso a você e a todos os professores que souberem utilizar esta maravilha.
Sandra Branco.

Comentário enviado por Sandra às 12h29

12/05/2004 18:47 - Oitavo Conto: O Gato de Botas(Contos, Cantos e seus Encantos)


Oi Marilene,
muito obrigada pela ajuda!:-)Sempre estarei por aqui, pode ter certeza. Meu seminário sobre Perrault é amanha. No meu próximo seminário de Lit. Infantil universal vou caprichar e te mandar o handout por email.
Bjos e obrigada

Comentário enviado por Marcela às 11h04 em 13.05.2004

Parabéns pelo blog, encontrei o seu cantinho através de uma pesquisa que estou fazendo sobre Perrault e seus contos O gato de botas e o pequeno polegar. Se vc pode me ajudar ficarei feliz e grata. Faço Letras na Federal do Ceará.


Comentario enviado por Marcela às 11h24 em 10.05.2004


12/05/2004 13:40 - Biografia 2 - Irmãos Grimm(Contos, Cantos e seus Encantos)


Sou aluna do curso de Psicologia, estou fazendo um trabalho sobre Contos Infantis, gostaria de saber se possível, o que representa cada Anão no conto Branca de Neve.
Gostei muito do seu Blog, me ajudou em meu trabalho,
espero no futuro poder colaborar.
Um abraço
Obrigada

Comentário enviado por Cris às 17h51 em 13.08.2004


01/12/2003 14:37 - Quinto Conto: (Contos, Cantos e seus Encantos)


Olá !!!

Amei seu blog, professora "bonitinha"!
Está muito bom mesmo, e acabei de ter uma idéia que fechrá nosso trabalho com chave de ouro.
Espero que goste.
Adoro a maneira como ensina, e percebo sua dedicação pelo trabalho que faz, sucesso!
Beijos da aluna "bonitinha".

Comentário enviado por Deborah Diogo às 14h26 em 01.06.2004


--------------------------------------------------------------------------------


Parabéns!
As dicas para alfabetização, a partir de uma história, ficaram ótimas. Aguardo por mais histórias, mais atividades.
Beijos, Fátima

Comentário enviado por Fátima às 20h56 em 04.04.2004


01/12/2003 14:23 - Quarto Conto: "João e Maria"(Contos, Cantos e seus Encantos)


Professora achei uma gracinha o seu site,bem elaborado e creio que será de grande ajuda para quem precisar. Parabéns por seu esforço e dedicação.

Comentário enviado por Maiza Maciel Fernandes às 00h04 em 11.05.2004


08/11/2003 19:57 - Um pouco da história dos Contos de Fadas...(Contos, Cantos e seus Encantos)


Adorei seu blog, sou coordenadora pedagógica do ensino fundamental numa escola pública e estamos trabalhando muito no incentivo a leitura e os contos são uma boa entrada. Parabéns

Comentário enviado por Mara às 22h42 em 01.10.2004


--------------------------------------------------------------------------------

Que sucesso!!!
Marilene, fiquei encantada com seu blog...
Faço Pedagogia no UNIS-MG, estou no 4º período, e queria escrever minha monografia sobre esse tema Contos de fadas...
Seria possível me enviar referências?
Desde já agradeço!!!


Comentário enviado por Shirley Sigiani às 17h11 em 18.09.2004


--------------------------------------------------------------------------------

Essas informações sobre Contos estão com um conteúdo muito bom, para trabalhar com crianças de ensino fundamental. Parabéns!

Comentário enviado por Alexandra às 09h56 em 17.09.2004


--------------------------------------------------------------------------------

Professora Marilene, minha noiva Eliana, aluna da professora Sandra, me indicou seu blog. Depois de o ler atentamente, não resisti a fazer o meu comentário, pois creio que entendi o seu objetivo que é:

1. Sensibilizar os formandos para a multiplicidade de utilizações dos textos literários infanto-juvenis;
2. Permitir o desenvolvimento das competências comunicacionais orais e escritas dos discentes;
3. Incentivar à leitura de obras infanto-juvenis com finalidades lúdicas e didáticas;
4. Promover a transdisciplinaridade através do recurso ao texto literário infanto-juvenil;
5. Desenvolver o espírito crítico dos discentes após a audição ou leitura de textos de índole literária infanto-juvenil;
6. Vincular valores éticos e solidários, para além de conhecimentos culturais variados;
7. Permitir o reconhecimento da importância da língua portuguesa na transmissão de informações.

- - Aprendizagem e ensino: o papel do educador, do professor
- - Que é ler?
- - Livros: para quê? Como explicá-los?
- - Teoria de Piaget e os métodos de leitura
- - Os pais e os educadores/professores e a aprendizagem da leitura da criança/adolescente
- - Como aprender a leitura: condições necessárias
- - Literatura infantil: dimensões diacrónica e sincrónica
- - Pedagogia da literatura infanto-juvenil
- - Literatura de expressão oral: formas de expressão oral
- - Contos populares
- - Contos de fadas
- - Contar histórias
- - A criança e os contos
- - Contos no jardim de infância e na escola.

Com os meus cumprimentos e desejos de muitas felicidades, um leitor atento de Portugal?

Gustavo Vasques


Comentario enviado por Gustavo Vasques às 19h31 em 13.08.2004


--------------------------------------------------------------------------------

Marilene, acabo de ver seu Blog, está super interessante, pena não ter achado o conto que meu grupo terá que apresentar, mas tenho certeza que vc levará para nós. Brincadeirinha. Beijos Vera

Comentário enviado por Vera às 10h20 em 11.05.2004


--------------------------------------------------------------------------------

Marilene
O Blog está como tudo q vc toca,
vira ouro... ouro pro saber!!!
Obrigada
bjinhos da irmãzinha
Marcelinha

Comentário enviado por Marcelinha às 00h46 em 17.11.2003


--------------------------------------------------------------------------------

Ficou lindo o seu Blog!
Fui abrindo e lia tudo muito rápido, pois queria parabenizá-la logo.
Gostei de sua apresentação (...)
Tenho certeza do sucesso que fará na área de interesse de contos e, também, para todos aqueles interessados em educação em geral.

Grande beijo,
Sandra Branco.


Comentário enviado por Sandra Branco às 18h16 em 10.11.2003

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

O Pequeno Polegar




Fig. Capa de Edições Loyola

Este é um conto antigo, que surgiu na Europa há muitos anos, mas ninguém sabe quem escreveu ou inventou, alguns o atribuem ao colimador Perrault
(veja a biografia de Perrault neste blog)

Conta sobre uma família de camponeses pobres, com sete filhos ainda crianças para criar. O filho caçula nasceu tão pequenininho e fraquinho, que foi sorte sobreviver. Ganhou por isso o apelido de Pequeno Polegar. Ele era pequeno, porém muito esperto, sempre aprendendo brincadeiras novas com seus irmãos.
Naquele tempo, houve na Europa uma grande fome, que se espalhava por todas as cidades em volta da casa de Polegar. Não havia alimentos para todos. As panelas estavam vazias...
O pai das crianças, sabendo que todas morreriam de fome se ficassem em casa, teve uma idéia:
- Vou levar todos para a floresta. Talvez encontrem coisas para se alimentar e sobreviver. Aqui é que não vai dar certo.
A mãe chorou muito, mas concordou com o pai em não contar nada para os filhos, para que não se desesperassem. Preparou um lanchinho para cada um (o último que tinham), e todos partiram cedo, pela manhã, como se fossem passear na floresta.
Depois de estarem todos bem cansados de andar, os pais foram se afastando, sem que as crianças percebessem.
O Pequeno Polegar foi o primeiro a reparar que os pais haviam sumido. Todos tentaram procurar, mas se descobriram perdidos e abandonados...
A noite já vinha chegando, e as crianças tinham medo dos lobos e morcegos que faziam ruídos assustadores em volta.
O irmão mais velho subiu na árvore mais alta para procurar um abrigo para a noite. Todos festejaram quando ele disse ter visto a torre de um castelo ao longe, para o lado de onde a lua vinha nascendo.
Foram caminhando rapidamente, pensando achar um grande castelo acolhedor, com um rei e uma rainha ricos e bondosos para dividir abrigo e alimento com todos eles.
Não era bem isso quando se via de perto, mas todo o resto era apenas a floresta perigosa, e eles não queriam ser devorados. Então bateram à porta assim mesmo.
Uma estranha voz respondeu:
- Vocês estão loucos? Não sabem o que tem atrás desta porta?
- Quem está falando? - perguntou Polegar.
-Eu! Ora bolas!
- Não sabia que existiam maçanetas falantes! - disseram todos.
- Para sorte de vocês, está vindo aí a dona da casa, que é boa e carinhosa, mas se chegar o patrão ...
A dona da casa abriu a porta, torcendo o nariz da maçaneta, que nem reclamou. Recebeu aquelas crianças abandonadas e famintas com todo seu carinho, mesmo preocupada que o marido pudesse chegar a qualquer momento. Trouxe bastante comida, que ali não parecia faltar. Todos ficaram satisfeitos e encheram as barrigas.
Como sempre, a maçaneta soltou berros horríveis quando o patrão torceu forte seu nariz para entrar. Ouvindo isso, a dona da casa correu para esconder as crianças embaixo da cama do casal.
Não adiantou nada, pois o ogro malvado que era seu marido sentiu o cheiro de gente estranha logo logo...
- Vou comê-los no jantar! Ahaha!
A mulher pediu que ele esperasse um pouco mais, pois o jantar maravilhoso de hoje já estava pronto, e tinha todos os pratos especiais que ele adorava.
Então o ogro mandou que fossem se deitar na cama ao lado da cama de suas filhas. Sim, o ogro tinha sete filhas, que dormiam todas na mesma cama, com suas coroas na cabeça.
Logo que os meninos se retiraram, ele rosnou que iria degolar cada um deles à noite. E ficou sentado esperando que dormissem...
Polegar, chegando com os irmãos ao quarto, viu as meninas dormindo no escuro com suas coroinhas e ficou pensando em uma idéia para escapar.
Quando todos dormiram, colocou sua idéia em prática: trocou os chapéus de seus irmãos, e o seu também, pelas coroas das meninas, e foi se deitar bem quietinho. Naquele quarto escuro, ele imaginou que o ogro iria reconhecer as filhas pelas coroas nas cabeças, e foi isso mesmo.
Quando o ogro chegou, foi direto para a cama dos meninos, mas pondo a mão nas cabecinhas, sentiu as coroas, e assim foi para a outra cama. Degolou todas as crianças que tinham chapéu na cabeça.
- Ufa! Quase degolei minhas próprias filhas!
Assim que o ogro saiu, o Pequeno Polegar acordou seus irmãos para fugirem juntos dali. Desceram pela escada de mansinho, e chegaram na maçaneta falante.
- Tenho ordens de avisar ao patrão sempre que tentam entrar ou sair por mim, mas desta vez vou desobedecer aquele malvado. O único problema é que vocês não vão escapar quando ele calçar suas botas de sete léguas e for atrás de vocês. Seus pés ficam os mais rápidos do mundo!
O Pequeno Polegar notou as enormes botas encantadas ao lado da porta, e resolveu calçar assim mesmo, com a maçaneta prendendo a gargalhada com o ridículo do seu tamanho junto ao da bota.
Fez bem: era uma bota encantada, e se ajustou perfeitamente ao seu tamanho assim que calçou em seus pequeninos pés.
Com elas, ajudou seus irmãos a voltarem para casa, mas não quis ficar. Despediu-se deles, e disparou para o castelo real.
Lá chegando, disse logo que era o correio mais rápido do reino, e gostaria de provar sua capacidade ao rei.
Nos primeiros dias, levava apenas mensagens sem importância, mas ele era mesmo tão veloz e tão correto, que acabou conquistando a confiança do rei em pessoa. Logo estava sendo o responsável pela entrega das mensagens mais importantes, até mesmo as de guerra.
Tudo chegava voando pelas mãos dele, com a ajuda da bota de sete léguas. Assim, o Pequeno Polegar foi ganhando e juntando muito dinheiro.
Um dia, ele achou que era hora de voltar em casa, e levar dinheiro bastante para sua família nunca mais sentir fome ou abandono. E isso ele também conseguiu.

domingo, 21 de novembro de 2004

Riquê de Topete

Adaptado do conto de Charles Perrault (1628-1703)


Houve uma vez uma rainha, que tinha um filho tão feio e disforme, que não parecia um ente humano. A mãe sofria desesperadamente, mas uma fada consolou-a, dizendo-lhe que, em compensação, o filho seria tão inteligente quanto habilidoso e teria, também o dom de tornar inteligente a jovem que amasse. A esse menino coube o nome de HenRiquê, porém, como ostentava um topete de cabelos no meio da fronte, todos os chamavam Riquê de Topete.

Quase na mesma ocasião, no reino vizinho, havia nascido uma princesa muito linda, mas tão estúpida, que a rainha sua mãe andava aborrecidíssima. Entretanto, uma fada prometeu que a princesa seria a mais bela moça do mundo e que teria o dom de tornar igualmente belo o jovem que amasse.

Passaram-se os anos. Riquê viu o retrato da famosa princesa, sua vizinha, dela se enamorou e foi pedi-la em casamento. A donzela se achava sozinha no parque, chorando amarguradamente, porque, apesar de toda a sua beleza, todos a evitavam e zombavam dela. O príncipe apresentou-se à moça e disse-lhe que, se ela quisesse aceita-lo como esposo, dentro de um ano, com toda a segurança, ela se tornaria inteligente e engenhosa. A jovem acedeu e o príncipe voltou muito alegre para o seu país.

A jovem noiva se transformou. Tornou-se inteligente, perspicaz, raciocinando com tanta agudeza, que os pais a custo reconheciam nela a moça tola e ignorante de outrora. O tempo se foi passando e a princesa esqueceu a promessa feita a Riquê, o do topete. Entretanto, um belo dia, quando passeava pelo parque, percebeu que a terra tremia sob os seus pés e, ela imediatamente se abriu, deixando ver uma enorme cozinha, regurgitante de cozinheiros, ajudantes e camareiros, que trabalhavam com afinco na preparação de variados e apetitosos manjares. A princesa, admirada, perguntou-lhes para que estavam trabalhando tanto. - Estamos preparando o banquete de bodas para Riquê, o do topete, que vai casar-se amanhã. A donzela só então se lembrou do compromisso que assumira com o príncipe, havia um ano e ficou inconsolável, por ver-se obrigada a casar-se com aquele homúnculo feio e disforme. Quando o príncipe chegou para o matrimônio, ela afirmou que jamais se casaria com ele. Riquê, porém, lhe falou com tanta diplomacia que a princesa por ele sentiu profunda admiração, graças aos seus raros dotes de espírito. Quando ele lhe revelou o dom, que ela possuía, mas ignorava, de tornar belo o jovem a quem amasse, a princesa exclamou, com veemência:

- Desejo, de todo o coração, que te transformes no mais belo príncipe do mundo! Mal havia pronunciado estas palavras, o príncipe converteu-se num belíssimo mancebo. O casamento se realizou no dia seguinte e o casal viveu feliz durante toda a sua vida.

A BELA ADORMECIDA NO BOSQUE





Adaptação do Conto de Jakob e Wilhelm Grimm


Há muitos anos atrás, havia um rei e uma rainha que desejavam muito ter um filho. Um dia, quando a rainha estava tomando banho, um sapo pulou pela janela e disse-lhe:
- Seu desejo será satisfeito. Antes de um ano você terá uma filhinha.

As palavras do sapo tornaram-se realidade. A rainha teve uma linda menina. O rei exultou de alegria. Preparou uma grande festa para a qual convidou todos os parentes, amigos e vizinhos. Convidou também as fadas, para que elas fossem boas e amáveis para com a menina. Havia treze fadas no reino, mas o rei tinha apenas doze pratos de ouro para serví-las, de modo que uma das fadas teria que ser posta de lado.

A festa realizou-se com todo o esplendor e, quando chegou ao fim, cada uma das fadas ofereceu um presente mágico à criança. Uma deu-lhe virtude; outra, beleza; a terceira, riqueza, e assim por diante, foram-lhe dando tudo o que ela poderia vir a desejar no mundo. Quando onze das fadas já haviam feito suas ofertas, de repente, apareceu a décima terceira fada. Ela desejava mostrar o despeito de que estava possuída por não ter sido convidada. Sem cumprimentar nem olhar para ninguém, entrou no salão e gritou para que todos ouvissem:

- Quando a princesa completar quinze anos, picar-se-á com um fuso de tear envenenado e cairá morta.
Sem dizer mais nada, retirou-se.

Todos os presentes ficaram horrorizados. A décima segunda fada, porém, que ainda não tinha formulado o seu desejo, deu um passo à frente. Ela não tinha capacidade para cortar o efeito da praga, mas podia abrandá-la, de modo que disse:

- Sua filha não morrerá, mas dormirá um sono profundo, que durará cem anos.

O rei ficou tão preocupado em livrar a filha daquele infortúnio, que deu ordens para que todos os fusos de tear que se encontrassem no reino fossem destruidos. À medida que o tempo ia passando, as promessas das fadas iam se realizando. A princesa cresceu tão bonita, modesta, amável e inteligente, que todos que a viam se encantavam por ela. Aconteceu que, justamente no dia em que ela completava quinza anos, o rei e a rainha tiveram necessidade de sair. A menina, encontrando-se sozinha, começou a vagar pelo castelo, revistando todos os compartimentos. Finalmente chegou a uma velha torre onde havia uma escada estreita, em caracol. Por ela foi subindo, até que chegou a uma pequena porta, em cuja fechadura havia uma chave enferrujada. Dando-lhe a volta, a porta abriu-se. Num pequeno quarto, estava sentada uma velhinha, muito ocupada com um tear, fiando. Vivia tão isolada na torre, que não tomara conhecimento da ordem do rei, com relação aos fusos e teares.

- Bom dia, vovozinha, disse a princesa. Que está fazendo?
- Estou fiando, respondeu a velhinha e inclinou a cabeça sobre o trabalho.
- Que coisa é esta que gira tão depressa? perguntou a princesa, tomando o fuso na mão.

Mal o tocou, porém, levou uma picada no dedo e, imediatamente caiu numa cama que havia ao lado, entrando num sono profundo. A velhinha desapareceu. Quem sabe se ela não era a fada má? O rei e a rainha, que acabavam de chegar, deram alguns passos no vestíbulo e adormeceram também. O mesmo sucedeu com os cortesãos. Os cavalos dormiram nas cocheiras; os cães, no pátio; os pombos, no telhado; as moscas, nas paredes. Até o fogo, na lareira, parou de crepitar. A carne, que estava assando, no fogão, parou de estalar. A ajudante de cozinha, que estava sentada, tendo à frente uma galinha para depenar, caiu no sono. O cozinheiro, que estava puxando o cabelo do copeiro, por qualquer tolice que ele havia feito, largou-o e ambos adormeceram. O vento parou e, nas árvores em frente ao castelo, nem uma folha se mexia. À volta do muro, começou a crescer uma sebe de roseira brava. Cada ano ia ficando mais alta, até que já não se podia mais ver o castelo.

Décadas se passaram e surgiu na região uma lenda, sobre a "Bela Adormecida", como era chamada a princesa. De tempos em tempos, apareciam príncipes que tentavam fazer caminho através da sebe, para entrar no castelo. Não conseguiam, entretanto, porque os espinhos os impediam e eles ficavam presos no meio deles.

Após muitos anos, um príncipe muito audacioso veio à cidade e ouviu um velho falar sobre a lenda do castelo que ficava atrás da sebe, no qual uma linda moça, chamada a "Bela Adormecida", dormia havia cem anos e, com ela, todos os habitantes do castelo. Contou-lhe também que muitos príncipes tinham tentado atravessar a sebe e nela haviam ficado presos, morrendo.

O príncipe então declarou:
- Não tenho medo. Irei e verei a "Bela Adormecida".
O bondoso velho fez o que pode para impedir que ele fosse, mas o rapaz não quis ouví-lo.

Agora, os cem anos já se haviam completado. Quando o príncipe chegou à sebe, como por encanto, os arbustos que estavam cheios de brotos, afastaram-se e deram-lhe caminho. Após sua passagem, fecharam-se novamente. No pátio, ele viu os cães dorminho. No telhado, estavam os pombos, com as cabecinhas escondidas debaixo das asas. Quando entrou no castelo, viu moscas dormindo nas paredes. Perto do trono, estavam o rei e a rainha, também adormecidos. Na cozinha, o cozinheiro ainda tinha a mão levantada, como se fosse sacudir o copeiro. A ajudante de cozinha tinha à sua frente uma galinha preta para depenar.

O rapaz continuou a percorrer o castelo. Estava tudo quieto. Finalmente chegou à torre, abriu a porta do quarto onde a princesa dormia e entrou. Lá estava ela, tão bonita que ele não se conteve: abaixou-se e beijou-a. Assim que a tocou, a "Bela Adormecida" abriu os olhos e sorriu para ele. Levantou-se, deu-lhe a mão e desceram juntos. O rei, a rainha e os cortesãos acordaram também e entreolharam-se, espantados. Os cavalos, nas cocheiras, abriram os olhos e sacudiram as crinas. Os cães olharam à volta e abanaram as caudas. As pombas do telhado tiraram as cabeças de sob as asas, olharam ao redor e voaram em seguida para o campo. As moscas, na parede, começaram a mover-se, lentamente. O fogo, na cozinha, acendeu-se novamente e assou a carne. O cozinheiro puxou as orelhas do copeiro, enquanto a ajudante começou a depenar a galinha.

O príncipe, apaixonado, casou-se com a princesa, num claro dia de sol, numa grande festa no castelo, e viveram felizes por muitos e muitos anos.

sábado, 20 de novembro de 2004

CINDERELA




Adaptação de Katharine Gibson


" Havia quatro irmãs que viviam numa pequena casa. As três mais velhas usavam vestidos de seda e tinham rendas em todas as saias. A mais moça, entretanto, andava esfarrapada e fazia todo o serviço da casa. Era, por isso, chamada Cinderela, a gata borralheira.
A mais velha era alta e magra, tinha nariz comprido e queixo pontudo. A segunda era baixa e gorda, tinha nariz chato e era vesga. A terceira era coxa e curvada para a frente. Além disso, era linguaruda. Cinderela, com todos os remendos, era bonita e delicada. Tinha cabelos dourados e olhos azuis. A pele era macia e as faces estavam sempre coradas.
Certo dia, um arauto do rei apareceu na cidade, empunhando uma trombeta e anunciando:
- "Atenção, atenção!! Daqui a quinze dias, Sua Alteza Real, o Príncipe, completará vinte e um anos. Sua Majestade, o Rei, dará um grande baile para o qual estão convidadas todas as moças da cidade".
A notícia pôs a cidade em alvoroço. As modistas não tiveram mais descanso. Não ficou uma só peça de fita ou de renda na cidade. Só os tecidos de algodão sobraram nas lojas. Tafetás, cetins, brocados e galões dourados foram vendidos no primeiro dia. Costureiras e alfaiates costuravam até as agulhas furarem os dedais. Os sapateiros nem podiam mais dormir. Os cabeleireiros cortavam, frisavam e penteavam noite e dia.
- Usarei um vestido solferino, disse a irmã mais velha.
- Eu irei de verde, informou a segunda.
- Meu vestido será amarelo, continuou a terceira.
- Irmãs, suplicou Cinderela, vocês tem tantos vestidos! Se me emprestassem um, eu poderia ir ao baile.
- Você ir ao baile? Onde já se viu uma coisa dessas? Disse a mais velha.
- Uma gata borralheira no palácio? Era só o que faltava! caçoou a segunda.
- Além de tudo, você é muito criança, concluiu a terceira.
Na noite do baile, as três irmãs apresentaram-se no palácio com vestidos caros, leques de gaze e plumas na cabeça. Depois que elas saíram, Cinderela sentou-se à beira do fogão, com seu vestido remendado. As lágrimas corriam-lhe pelas faces. De repente, ouviu um ruído semelhante a um bater de asas e uma sombra escura passou a seu lado. Olhou, assustada. À sua frente, apareceu uma mulher de preto, segurando uma varinha. Usava uma capa larga e um chapéu alto, como os palhaços.
- Por que está chorando? Perguntou a mulher.
- Quem é a senhora? Indagou a menina.
- Espere e logo saberá, respondeu a mulher.
- Por baixo da aba do chapéu, seus olhos brilhavam como estrelas.
- Diga-me, porque está chorando? insistiu ela.
- Minhas irmãs foram ao baile do Rei e eu fiquei aqui sozinha. Só tenho este vestido, velho e remendado.
E, pondo as mãos no rosto, começou a soluçar.
- Se continuar aí sentada, chorando, não poderá mesmo ir ao baile. Levante-se, e faça tudo o que eu mandar. - - Há ratos nas ratoeiras? Perguntou a senhora.
Cinderela, muito admirada com a pergunta, respondeu:
- Há três no celeiro, três no sótão e dois camundongos na despensa.
- Apanhe as ratoeiras e leve-as para o jardim. Traga-me também a abóbora maior que encontrar na horta.
Cinderela fez exatamente o que ela mandou. Repentinamente, a senhora tocou nas ratoeiras e na abóbora com a varinha mágica e eis que elas se transformaram. Os ratos viraram seis soberbos cavalos pretos. Os camundongos viraram dois cocheiros elegantemente vestidos e a abóbora transformou-se numa linda carruagem dourada. Depois, tocou o vestido de Cinderela com a varinha, e imediatamente desapareceu aquele pobre vestidinho remendado, sendo substituído por um riquíssimo vestido de baile. Em seus pés apareceram lindos sapatinhos de cristais.

- Cinderela, disse a senhora. Vá e divirta-se, mas, preste atenção: quando o relógio der meia-noite, volte para casa sem demora. Se não o fizer, os cavalos voltarão a ser ratos, os cocheiros, camundongos, e a carruagem será novamente uma abóbora. Quanto ao seu lindo vestido, minha querida, voltará a ter remendos. Preste atenção ao relógio. Não se esqueça!!!
- Não me esquecerei, prometeu Cinderela, mas, quem é a senhora?
- Sou sua fada madrinha. Lembre-se bem de tudo o que lhe disse.
- Lembrar-me-ei, prometeu a mocinha.
- Antes que Cinderela pudesse lhe agradecer, a senhora desapareceu, como por encanto. Quando a carruagem chegou ao palácio, os criados ficaram tão admirados, que os botões saltaram de seus coletes apertados. Com os olhos arregalados, acompanhavam a linda moça, que saltou da carruagem.

Quando ela entrou no salão, o príncipe, que dançava com uma duquesa, foi imediatamente ao seu encontro e não dançou com mais ninguém. A música era tão agradável e o príncipe tão encantador que, quando o relógio deu a primeira badalada da meia-noite, Cinderela não se apercebeu disso. Ao bater a segunda, porém, ela teve a impressão de ver a fada num canto do salão. Lembrando-se, então, de tudo, deu um grito abafado e saiu correndo. O príncipe, com grande espanto, viu-se sozinho no meio do salão. Procurou em vão pela linda princesa com quem havia dançado.

Cinderela fugiu pelos corredores do palácio e precipitou correndo pelas escadarias que levavam aos jardins justamente quando o relógio dava a última pancada da meia-noite. O príncipe veio correndo atrás dela, mas não conseguiu alcançá-la. No fim das escadarias, encontrou apenas uma pobre moça, chorando na escuridão. Seis ratos pretos iam correndo à procura de queijo, e dois camundongos os seguiam. Uma abóbora grande rolava pela rampa das carruagens.
O príncipe olhou bem para todos os lados, mas não conseguiu ver a princesa. Muito triste, começou a subir os degraus. De repente, seus olhos avistaram alguma coisa que brilhava como uma jóia. Ajoelhou-se e apanhou um sapatinho de cristal, tão pequeno que cabia na palma de sua mão. Guardou-o no bolso, com muito carinho, na esperança de, por meio dele, encontrar a princesa. O rapaz ficou tão desolado que não podia dormir nem comer. O Rei enviou mensageiros para todos os lados do reino, à procura de uma moça, cujo pé fosse tão pequenino que coubesse naquele sapatinho.
No dia seguinte, Cinderela, novamente maltrapilha, pôs-se a fazer seu serviço. Seu pensamento, entretanto estava no príncipe. Suas irmãs estavam mais azedas do que nunca, e não falavam noutra coisa, senão na estranha princesa que estivera no baile.
- Onde já se viu coisa igual? O príncipe não dançou conosco. O tempo todo só deu atenção àquela estranha princesa. Dizem que ela é filha do imperador das Índias, disse uma das moças.
- Seu vestido era tecido com fio de diamantes, informou a segunda.
- Filha do imperador das Índias? perguntou Cinderela, curiosa.
- Trate de esfregar o chão. Que tem a ver você com a vida do príncipe? Vociferou a mais velha.

Durante muitos dias, os emissários do Rei viajaram pelo país. Visitaram cidades grandes e pequenas, aldeias e povoados. Em todas elas, as moças se alvoroçaram, ansiosas por casar com o príncipe.

Finalmente, os mensageiros chegaram ao pequeno quarteirão onde Cinderela vivia com as irmãs. Suas trombetas douradas brilhavam ao sol, anunciando: "Aquela que calçar o sapatinho, será a esposa do príncipe". Moças de todos os tipos apresentaram-se, porém o sapatinho não servia em nenhuma. Afinal, chegaram à casa de Cinderela.
A irmã mais velha foi a primeira a aparecer, mas apenas seu dedo grande coube no sapato. A segunda experimentou, mas o calcanhar ficou do lado de fora. Veio a terceira, mas só a metade do pé entrou.
- Deixe-me experimentar, pediu Cinderela.
- Você, uma princesa! zombaram as irmãs. Rainha do borralho!!! Isso sim, caçoaram elas.
Enquanto elas riam, o chefe dos mensageiros ajoelhou-se à frente de Cinderela e calçou-lhe o sapatinho que coube perfeitamente em seu pé.
- A Senhora será a esposa do príncipe. Venha conosco, Sua Alteza.
Cinderela acompanhou-os ao palácio. Havia uma multidão na calçada para vê-la. Os homens estavam apenas curiosos, mas as moças choravam de inveja.
O príncipe, quando a viu, não reparou nos remendos de seu vestido, nem nas manchas de cinza que trazia nas faces. Viu apenas aquele rostinho tão querido que ele ansiava tanto rever. Por ordem do Rei, foi anunciado que o casamento se realizaria no dia seguinte. A festa durou dez dias e dez noites. As irmãs de Cinderela dançaram só com os empregados da estrebaria. Cinderela e o príncipe formaram o casal mais feliz do mundo. E o reino povoou-se de amor e alegria pela felicidade dos dois."